a colheita dos princípios

maria rodrigues |
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Afastei o reposteiro para a luz tomar a sala. Afinal, é para ti que escrevo e não me quero enganar – os erros não batem à porta antes de entrar. O Verão está avançado demais para que a tua ausência seja ainda curta. Juntei sobre a mesa todas as memórias que me deixaste – o urso de porcelana comprado para me aliciar, o pequeno Buda de madeira que me deste para te deixar entrar no meu quarto e, por último, a boneca de pano para pagar o meu silêncio. Tiraste-me um ano de felicidade e com ele toda a minha inocência. Querendo-me tua, tiraste-me de mim, e ensanguentada esperei a volta do correio. Agora, já não é pelas cartas que espero. A dor passou, mas a ferida está ainda fresca. Preciso de sangue para respirar – e não será o meu. Não voltes agora. Não voltes nunca.
há um afago crescente nas minhas conversas por ti. há lagos de pele fria que reflectem o nosso carinho. há na minha nuca uma lua que cresce gémea ao teu olhar.
enquanto dormias calei-te o sono. deixaste de respirar em consideração por mim, exercício prenhe de romantismo. por breves momentos foste a minha lua predilecta – acabada de nascer, prodigalizando alvores e remédios. quando de passagem te amei com beijos e cuidados e afagos, eu era a tua mais cândida memória.
entre nós forjou-se um cosmos de mentiras. a nossa luz resvalou lado a lado com a desilusão.
Tinha uma vida antes de te conhecer, sabes? No tempo em que todos me acarinhavam, como se eu merecesse ser feliz. Em que me achavam piada, porque era pequenina. Ainda não tinha crescido nem tinha aprendido o significado da palavra inocência. Cresci e deixei de ser uma rainha. Deixei para trás as fraldas, o biberão e a ilusão de que era o centro do mundo.
Agora, ouço-te chamares-me princesa. Eu condescendo, embora não encontre sentido nisso. Somos casados. E eu penso sempre nas princesas como donzelas casadoiras, ainda à espera do príncipe encantado. Eu não tenho esse olhar vago e sonhador que imagino nas princesas, essa credulidade, essa aliança com o optimismo e a esperança. Mas tenho-te a ti, e olha que me podia ter saído bem pior.
assim me mostro, para que me reconheças quando te for presente. quero que saibas: vivo suspensa neste mundo de paisagem enevoada e fantasias impostas pelo desejo de uma pose maior.
que o teu mundo traga outras cores e sons com ombros largos para me permitir suficiente aconchego e aliviar-me o aperto do braço e da cintura.
e nos dias de chuva faz de regaço e traz flores.
Dos três, eras o mais reguila. Eras o malcriado, o refilão. Aquele que se portava mal na presença das visitas. Eu e a Joana cedo nos apercebemos que resultava culpar-te pelas nossas asneiras. Lembras-te do jarrão da avó, que caiu ao chão e se partiu? Eu fingi que te estava a proteger, ao ser questionada. Quando a minha mãe me perguntou se tinhas sido tu, bastou-me abanar a cabeça. Percebo agora que muitas vezes aguentaste os imerecidos castigos com um estoicismo que não era próprio da tua idade. Eras protector em relação às tuas primas, como se fosses meia dúzia de anos mais velho e mais maduro. Por vezes, dizias logo fui eu, antes que nós tivéssemos tempo de pensar em admitir a culpa. Crescemos e mantiveste esse lado protector, que mais tarde percebemos ser a cola que nos mantinha unidos. Não me casei contigo, como nas nossas brincadeiras, em que a Joana era a madrinha do casamento e as bonecas as damas de honor. Nunca te dei o beijo na boca que me pediste mil vezes. Casaste com a filha do leiteiro e fomos nós as damas de honor, muito mais bonitas que as bonecas dos casamentos a brincar da nossa meninice. Depois foi a Joana, e foste tu o padrinho. E eu aqui estou, solteira, a tia dos vossos filhos, a anfitriã das festas da família, a Aninhas.
não sei como te chamas nem com que idade te deixou de servir o vestido. sei que me apareces. em coincidências. e eu gosto de aparições. sei que não se deu contigo a frugalidade da desaparição. e ainda há poços escuros na geografia. e meninas que suportam poços. e mãos de meninas que transportam regadores até à idade adulta. e ainda há sítios onde repousem flores. não descanso enquanto não tirar uma fotografia igual à tua. para me saber imortal num qualquer século XXII.
meço-me estreita entre as cinco paredes da cozinha. com ar respiro e chamo pelo Vergílio. não me responde, espera pelo pai que tarda na faina.
Morreram os malmequeres, meu amor, e a água que os segurava sumiu no meio das folhas agora secas. Mas ainda podemos plantar uma floresta de outono, não são precisas flores, meu amor, e caules erguidos ao alto temos nós muitos, o vento estremunhado também chegará com tempo e a água para o charco já nós a temos de menos. Uma floresta de outono, meu amor. Os dois a obedecer ao tempo e a comungar a repartição dos dias em redor do charco; a ver se notas a minha teimosia no reflexo da água, e eu a tua intransigência, meu amor. E se o sol nos faltar incendiaremos as pontas das árvores, verás como ficamos bem na fotografia da água rodeados de tamanha luz. E ainda te posso prometer, jamais será inverno, meu amor.
Hoje faço anos mas não tenho um sorriso na boca. Fiquei com a beleza que se despiu das cores. Fiquei com o branco do vestido. Com o branco das flores. Nunca suspeitamos do silêncio. Do branco. Suspeitamos do cão da vizinha, se ele for preto. Nunca suspeitamos de um vestido branco. Nunca suspeitamos das flores. Nunca pensamos que também a tristeza se pode vestir assim. Com uma beleza crua que faz doer. É tão lindo o meu vestido branco. Pelos teus anos, minha filha, também te posso comprar um.
Recebi a notícia sem poder acreditar. Tive a má sorte de estar magoada, muito distante do perdão que seria a minha própria liberdade. A primeira vez que o perdi, quando saí de nossa terra, meu maior desejo era ficar bem distante dele. Talvez isso tenha apressado meu casamento. Penso que busquei em cada homem da minha vida um pouco de meu pai. Sua alegria tão ruidosa. O jeito destemido de se lançar em aventuras. E depois, crescida, me transformei em sua inimiga, exigindo dele o impossível. Os amigos e familiares se foram. Meus irmãos estão na sala, acompanhando mamãe que se recusa a tomar um sedativo. Olho para esta foto e uma dor sem tamanho me fere a carne. Nunca entendi meu pai. Não fui capaz de acolher o menino que sempre morou nos seus olhos.
queria apenas dizer. tu és a menina que me olha do corredor. olha-me e vê-me. diz-me quem sou, quem és. desenha o meu mapa nas costas da mão. pinta-me, por favor, usa as ceras que roubaste no recreio. olha-me. vê-me. quando crescer. queria apenas dizer. quando for grande quero crescer para te abraçar. sem perder o fôlego. agarrada a ti perdi o medo de cair. tu sabes como me mudar. a tua mão. com o meu mapa nas costas. essa que me vai envolver.
os meus pés estão frios assim longe do cobertor. o botão da camisa saiu. a nossa esperança rolou escadas abaixo.
Olha-me nos olhos e pergunta-me se gosto de chocolate. Pergunta-me se daqui a vinte anos vou gostar dos teus dedos no meu cabelo. E eu respondo-te que talvez. E eu respondo-te que sim. Mas não sei se daqui a vinte anos terei ainda caracóis. Porque é a minha mãe que me põe os rolos à noite. E todas as noites são muitas noites. E vinte anos. È bem o tempo para a minha mãe se cansar. A minha mãe também me penteia de manhã. Todas as manhãs. E compra-me chocolates. Não todos os dias. Eu agora gosto da minha mãe, mas ainda não sei se vou gostar de ti. Se eu vou gostar dos teus dedos no meu cabelo? Olha-me nos olhos e pergunta-me. E eu respondo-te que talvez. Que sim. E eu pergunto-te. Acaso saberás tu como se põem os rolos. Pergunto-te se me vais comprar chocolates. Se saberás pentear-me quando for de manhã.
respiras melhor voltada a poente. emolduras o corpo no aperto da traqueia para enunciar o degelo. cinges nas vestes o devaneio de cenários engendrados com doçura, como o olhar que ilumina diferentemente as faces. e trazes sorrisos na mala. há uma herança no granito que aconchega o teu relevo: é extremo o ardor com que confinas o tempo.
